segunda-feira, junho 13, 2011

Chacun se bat pour ce qui lui manque


Hoje, ao início da tarde, fui avisando que amanhã terão de se orientar sem mim. Há feriado para o menino, para a menina, para o pai... para a mãe, não. O pai dá pequeno-almoço, almoço, despe, veste, põe a dormir e acorda, dá banhos... pai a tempo inteiro, portanto.

Pouco depois, dou com este lembrete, dirigido ao pai, colado na porta da cozinha. Auto-suficiência é isto mesmo - cada um dando conta de si, todos dando conta de todos.

domingo, junho 12, 2011

ABRACADABRA

No início da minha carreira – há quase 16 anos – estava em situação de abandono escolar o aluno do ensino básico que deixava de vir às aulas, acabando por ultrapassar o limite de faltas injustificadas previsto na lei.

Hoje, está em situação de abandono escolar, e passo a citar, “a população com idade entre 18 e 24 anos, sem o secundário completo, que completou o 3.º ciclo de escolaridade ou não, e que não está inserida em qualquer programa de educação/formação(1).”

A engenharia (dos números) é uma coisa linda. Tão linda, que bem podia passar de ciência a arte, 7ª arte, usurpando o lugar ao cinema, já que Canudo, no seu manifesto, esqueceu o ilusionismo.

(1) Por “inserida em qualquer programa de educação/formação” entenda-se com matrícula/inscrição formalizada, não interessa se frequenta a escola.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Para mim é linear: a fraqueza de argumentos fala por si, é metástase de uma debilidade maior. Assim foi com os activistas do “Não ao Acordo Ortográfico”. Comecei por estranhar manifestações pontuais de ignorância por parte de quem se arroga o estatuto de paladino do idioma luso, depois vieram os ataques pessoais, logo a seguir as invectivas xenófobas, seguidas de abespinhados complexos de serôdio colonialismo. A páginas tantas, não eram já argumentos o que ouvíamos, mas ecos, porque a mensagem se esvaziou, desconexa. Lamento. Sem ponta de ironia, lamento. Sendo o texto do acordo tão explícito nas suas próprias fraquezas, não seria difícil alvejar-lhe a cabeça, o coração, ou mesmo o calcanhar, em cheio no tendão que o fez nascer claudicante. Mas não. À falta de perícia optaram pelo foguetório, mal doseado de pólvora e a estoirar em mãos inaptas.

Não ao acordo, mas não assim.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Osculum, basium, suavium

Antologia de antologia – assim me ficou na memória a última cena de Cinema Paraíso. Ainda adolescente, tudo aquilo me pareciam beijos à séria, não o ósculo socialmente convencionado, mas o beijo de ímpeto roubado, como o beijo devia ser. Achava eu que era assim, até ao beijo de há dez anos.

É impressionante como o património lexical de determinada comunidade linguística diz tanto sobre o grupo em causa. É natural que os escandinavos designem a neve por meio de uma infinidade de termos; como é natural e muitíssimo revelador que a antiga civilização romana dispusesse de três termos diferentes para designar um beijo, sem processos figurativos ou conotativos implicados, como fazemos hoje em tom mais brejeiro.

Hoje, mantenho aquela última cena como de antologia, sem a ter, contudo, por antológica. Porque o beijo de há dez anos mudou tudo. Porque a neve terá certamente muito menos cambiantes que um beijo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Pontes

A verdadeira arte marginal. Não à margem, mas das margens e para as margens. União do remoto e último recurso de abrigo. O que restou de Babel, destronada a arrogância humana. Muito mais que ciência, engenho e arte. Portajá-las e perder a oportunidade de as percorrer a pé são sacrilégios. Maravilham-me as pontes. Esta hei-de fazer um dia.


Foto daqui.