domingo, fevereiro 05, 2012

Aos 19 anos escrevemos coisas tristes e parvas

Amarelo

Era a planície. Imensa.
O horizonte incandescente.
E toda a paisagem propensa
À triste solidão crescente
Que a minha razão acende
Cada vez que venho aqui.

Só um pouco de verde ou azul
Que me afogasse este amarelo...
Quem sabe se com o Norte a Sul
Abrando a agonia de vê-lo
Sempre o mesmo moribundo...
Era só um pouco de azul!

Agora é negro. Negro é tudo.
Guarda o azul para ti.
Toma antes este meu rubro
Derramado sobre amarelo.
Serão chamas para os meus olhos
Cada vez que venho aqui.

08.11.1991

segunda-feira, junho 13, 2011

Chacun se bat pour ce qui lui manque


Hoje, ao início da tarde, fui avisando que amanhã terão de se orientar sem mim. Há feriado para o menino, para a menina, para o pai... para a mãe, não. O pai dá pequeno-almoço, almoço, despe, veste, põe a dormir e acorda, dá banhos... pai a tempo inteiro, portanto.

Pouco depois, dou com este lembrete, dirigido ao pai, colado na porta da cozinha. Auto-suficiência é isto mesmo - cada um dando conta de si, todos dando conta de todos.

domingo, junho 12, 2011

ABRACADABRA

No início da minha carreira – há quase 16 anos – estava em situação de abandono escolar o aluno do ensino básico que deixava de vir às aulas, acabando por ultrapassar o limite de faltas injustificadas previsto na lei.

Hoje, está em situação de abandono escolar, e passo a citar, “a população com idade entre 18 e 24 anos, sem o secundário completo, que completou o 3.º ciclo de escolaridade ou não, e que não está inserida em qualquer programa de educação/formação(1).”

A engenharia (dos números) é uma coisa linda. Tão linda, que bem podia passar de ciência a arte, 7ª arte, usurpando o lugar ao cinema, já que Canudo, no seu manifesto, esqueceu o ilusionismo.

(1) Por “inserida em qualquer programa de educação/formação” entenda-se com matrícula/inscrição formalizada, não interessa se frequenta a escola.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Para mim é linear: a fraqueza de argumentos fala por si, é metástase de uma debilidade maior. Assim foi com os activistas do “Não ao Acordo Ortográfico”. Comecei por estranhar manifestações pontuais de ignorância por parte de quem se arroga o estatuto de paladino do idioma luso, depois vieram os ataques pessoais, logo a seguir as invectivas xenófobas, seguidas de abespinhados complexos de serôdio colonialismo. A páginas tantas, não eram já argumentos o que ouvíamos, mas ecos, porque a mensagem se esvaziou, desconexa. Lamento. Sem ponta de ironia, lamento. Sendo o texto do acordo tão explícito nas suas próprias fraquezas, não seria difícil alvejar-lhe a cabeça, o coração, ou mesmo o calcanhar, em cheio no tendão que o fez nascer claudicante. Mas não. À falta de perícia optaram pelo foguetório, mal doseado de pólvora e a estoirar em mãos inaptas.

Não ao acordo, mas não assim.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Osculum, basium, suavium

Antologia de antologia – assim me ficou na memória a última cena de Cinema Paraíso. Ainda adolescente, tudo aquilo me pareciam beijos à séria, não o ósculo socialmente convencionado, mas o beijo de ímpeto roubado, como o beijo devia ser. Achava eu que era assim, até ao beijo de há dez anos.

É impressionante como o património lexical de determinada comunidade linguística diz tanto sobre o grupo em causa. É natural que os escandinavos designem a neve por meio de uma infinidade de termos; como é natural e muitíssimo revelador que a antiga civilização romana dispusesse de três termos diferentes para designar um beijo, sem processos figurativos ou conotativos implicados, como fazemos hoje em tom mais brejeiro.

Hoje, mantenho aquela última cena como de antologia, sem a ter, contudo, por antológica. Porque o beijo de há dez anos mudou tudo. Porque a neve terá certamente muito menos cambiantes que um beijo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Pontes

A verdadeira arte marginal. Não à margem, mas das margens e para as margens. União do remoto e último recurso de abrigo. O que restou de Babel, destronada a arrogância humana. Muito mais que ciência, engenho e arte. Portajá-las e perder a oportunidade de as percorrer a pé são sacrilégios. Maravilham-me as pontes. Esta hei-de fazer um dia.


Foto daqui.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Me engana que eu gosto


Fora da Literatura, a figura de estilo é tão sedutora quanto perigosa. Um eufemismo, por exemplo, não é mais do que uma mentira, piedosa ou desonesta, mas uma mentira. Aliás, toda a estilística é mentirosa, e todo o apreciador da boa literatura implora que o enganem bem enganado.

domingo, novembro 28, 2010

Chuva



«As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir»

As palavras parecem Fado, mas só as palavras, nada mais. Logo, “Chuva” não é Fado, porque Fado é muito mais que poesia.


O Fado nunca me mentiu, nunca me atraiçoou, nunca se travestiu, a “Chuva” sim. O Fado é universal, nacionalmente universal, a “Chuva” não.


Gosto destes dias de clausura a quatro – quotidiano do mais vulgar que há, daqueles dias que não engendramos, dias que correm, só, sem mais. Estes deixar-me-iam saudades, estou certa, se os perdesse. Tenho por inestimável o banal, “as coisas vulgares que há na vida”, os dias curtidos, bebidos, fumados devagar. Se calhar sou eu que tenho muita sorte – aconteceu-me banalizar a felicidade? Ou estarão outros sob o efeito da cegueira que lhes oculta a felicidade no banal? Até do semáforo ao fundo da rua eu podia ter saudades, na sua cadência imutável – verde, amarelo, vermelho…

Gosto da chuva.

segunda-feira, outubro 04, 2010

6.1

Era um quarto de hotel bem estrelado: amplo, moderno, de bom gosto, com vista privilegiada sobre a cidade, não sei qual.

Não foi propriamente um abalo. Foi mais um desassossego, atingindo-nos os pés e os ouvidos, como o que experimentamos na plataforma à chegada do metropolitano. Foi o tempo de nos calarmos, reverentes, certos de que a vida prosseguiria, dentro de segundos. Passou e, quando tínhamos já dado ordem de marcha ao dia, vimo-nos em plano inclinado. Já não tínhamos a janela por miradouro acessível - estava agora lá no cume, no sopé ficava a cabeceira da cama, com a colcha de brocado rosa-velho estranhamente composta, após a alvorada recente. Em sincronia, sem diferendo, em cabeças distintas - não recordo quantas - o tremor passado e aquele espaço em nova perspectiva declivosa compuseram cópula perfeita: SISMO.

Mais submissos que coniventes com o silêncio da terra, remetemo-nos também ao mutismo, cego e surdo. Cada um tratava de si, preparando a debandada. Porque a circunstância era de emergência, não houve critério que me censurasse a camisa-de-dormir e os pés em meias de lã serrana enfiados nos sapatos de verniz e salto alto. Era assim que me predispunha à fuga. Quando finalmente deitei os olhos ao mundo, vi-me em desacordo com os demais - eles todos de smoking, elas pejadas de lantejoulas, a começar nos pés e a acabar muito além da cabeça. De vergonha, pedi uns instantes, iria aperaltar-me também. O risco vestia-se de irrelevância e o infortúnio pedia indumentária de gala. Ainda que aquelas quatro paredes trouxessem ao chão todas as estrelas, esmagadas pelo céu em ângulo raso, o traje seria de fausto.

Não tenho sonhos proféticos, ou meramente premonitórios. Só destes, que me expõem fraquezas, medos e angústias. Só destes, cruéis quanto baste, porque me despem e abandonam à beira do meu despertar.

domingo, setembro 19, 2010

Detesto aspas



Daquelas que despem metáforas e as expõem nas suas limitações, ou as estupram brutalmente. Abomino - sem aspas - os imbecis, estúpidos, que nos vedam o acto de amor com as palavras e as despem, marcando-as a ferro com aspas, antes mesmo de as podermos conhecer e beijar.

sábado, setembro 18, 2010

Aula nº tal, dia tantos do tantos de dois mil e tal

Sumário: Estereótipos sexistas nas relações interpessoais - Actividade no âmbito da educação sexual em meio escolar: visionamento, análise e debate de um vídeo.



quarta-feira, setembro 01, 2010

Carpe diem

Logo pela manhã, acabada de chegar à escola, dei com a laje do pátio em estagnado rebuliço. Numa imobilidade tétrica, aquelas folhas de plátano lembravam:

Não te iludas. Ainda que te dispas vestindo-te de Verão, o tempo não pára, nem inverte a marcha. Antes corre a bom ritmo. Pára tu, ou corre também – como tiver de ser – mas não deixes nada para trás.

Parcas em argumentos, convenceram-me. Cada uma mais encarquilhada que a outra, sem pingo de vida, sugada pelo tempo quente, fizeram-me correr também para poder parar mais logo com os miúdos ao colo e o meu homem por perto.

Que não me passe da ideia, ao final do dia, a cor falida do alerta matinal. Que não me passe da ideia a razão de ser da corrida acelerada, o motivo do galope – a ilusão de tempo estancado e plenamente degustado, antes do sono.

Já sinto o aroma doce da sobremesa e não me façam muitas perguntas sobre o resto da refeição. Esqueci-me de lhe tomar o gosto, com o fito na última iguaria.

Não aprendi nada, eu acho, e amanhã o vento já as calou.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Coisas pequenas


Não digo coisinhas, não. Coisas pequenas só na sua dimensão física, temporal, tangível, enfim.

Quando há uns dias tropecei neste blogue, aliás, neste post e só depois passei a vasculhar a casa toda, levei uma coronhada na cabeça. Como se no momento exacto em que assaltava aquele espaço, tivesse aparecido a proprietária e zás! Foi de tal maneira, que ainda me vejo dormente e zonza. Pode ser da pancada, mas a verdade é que já não sei se escrevia isto hoje, como escrevi então. Não sei. Ela garante:

«You're going to be just fine. I promise. In fact, you will be better than fine.»

Eu é que não tenho certeza nenhuma.

sábado, agosto 28, 2010

Cá e lá

, estou à mesa do café. Aqui, vou protelando a vida, em lento baloiço, numa cadeira só minha, em casa. Assim foi isto de diário materno a gazeta de vilarejo. Este espaço mudou. Mudou como só podem mudar paredes que são nossas. Nas do café não se mexe, de tão públicas e de ninguém. Gosto do canto só meu, com janelas rasgadas, é certo, mas meu. Pela esplanada vou passando para saber novidades, deixar acenos de bom-dia e boa-noite, ocupar o meu lugar na bancada de todos os arbítrios, desafiar uns e outros para a conversa ou para uma visita a qualquer hora. É… fiquei para aí uns tempos largos à mesa do café, sem voltar a casa – deixei portas por trancar, tudo ao pó, sem nota ao carteiro nem nada. No regresso era já casebre, mas cá está. Vou compondo a quase ruína no intervalo da indolência. A cal deixou-lhe a fachada com outro ar. O resto tem tempo. É bom voltar a casa.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Anatomia de uma cesariana

(Clicar para ver a animação)

Os bonequinhos não falam Português, mas a coisa resolve-se. Ei-la, a tradução:


- Olá, doutor. Como está?
- Viva, enfermeira. Estou péssimo. Só fiz 9 buracos por causa desta paciente. Eles estão à minha espera, por isso temos de despachar isto. Está tudo a postos para a cesariana de emergência?
- Sim, doutor, preparei-a há 3 horas, quando o doutor ligou. Ainda bem que chegou.
- Porquê? Que aconteceu?
- Ela começou a ter vontade de fazer força. Por isso pusemo-la a dormir.
- Bolas! Fazer força? Podia ter sido a desgraça. Cheguei mesmo a tempo.
- Só vou precisar é do diagnóstico para reportar à seguradora.
- Não sei. O que podemos dizer hoje?
- Bem… podemos ir para o trabalho de parto não evolutivo.
- Demasiado óbvio.
- E que tal bebé demasiado grande?
- Talvez…
- E demasiado pequeno?
- Essa podia pegar.
- Pois. E a preservação vaginal preventiva?
- Bem, penso que esta senhora sabe ler, temos de fazer a coisa parecer bem.
- Desproporção feto-pélvica?
-Boa! Essa soa muito clínica. Vamos nessa.
- Sim, doutor.
- E o marido vai estar cá para presenciar o milagre do nascimento?
- Não, alistou-se na marinha de guerra.
- Ah, sim? Não sabia. Quer dizer, como havia de saber semelhante coisa?
- Pois. Eu vi no plano de parto dela.
- Leu o plano de parto dela?
- Não. Rasguei um bocadinho para embrulhar e deitar fora a minha pastilha elástica.
- Ahhhhh! Normalmente uso os formulários do consentimento informado para isso.
Bem, fico feliz por saber que estou a apoiar as tropas.
- Como assim?
- Ele vai agradecer-me por manter intacto o seu túnel do amor para a festa de regresso a casa. Ah! Ah! Ah! Ah!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ela tem uma doula.
- Uma quê?
- Uma doula.
-Nunca ouvi falar em semelhante coisa. Haverá algum creme de aplicação tópica para isso?
- Não é urticária. É uma pessoa. Embora seja igualmente irritante.
- E para que serve uma doula?
- Ela queria um parto natural, portanto contratou uma doula para a ajudar.
- Bem, já sabe qual é a minha posição… No que respeita ao parto, o natural é querer medicação. Ah! Ah! Ah! Ah!
- Oh, doutor! O doutor tem muita piada!
- Bom, mãos à obra.
Onde andam os anestesistas?
- Eles vêm já. Querem garantir que ela não aspira o gelo triturado que comeu hoje.
- Desgraçados! Têm noção da urgência crítica que aqui temos? Se não volto lá, tenho de esperar uma semana por nova tacada.
- Vou enviar-lhes mensagem imediatamente.
Entretanto, preciso de alguma informação sobre o acompanhamento pré-natal para o questionário.
- Ok.
- Quando teve ela o seu último parto?
- Não faço ideia.
- Ela tem preferências religiosas.
- Não tenho ideia.
- Ela está à espera de menino ou menina?
- Bem, calculo que ou um, ou outro.
- Ela tenciona amamentar?
- Por que me faz todas essas perguntas pessoais? É para isso que servem os questionários!
- Peço desculpa, doutor.
- Começo assim que conte com a equipa aqui. Vou precisar de ventosa.
- Isto é uma cesariana. Para que precisa disso?
- Ouvi um colega dizer que posso fazer uma incisão mais pequena, se puxar o bebé com a ventosa, e minimizo a cicatriz.
- Uau! Parece fantástico! Há estudos sobre o assunto, a que eu possa aceder?
- Estudos? Não, por Deus! O Jim falou-me nisso quando íamos no quarto buraco. Pareceu-me boa ideia. Por isso, por que não experimentar?
- E há mais, doutor. Ela pede que esperemos que o cordão deixe de pulsar para o cortar.
- Nem pensar! Isso é perigoso!
- A sério?
- Sim! Quanto mais tempo o bebé passar ligado a ela, mais tempo está sob a minha responsabilidade. Essas coisas são imprevisíveis. Deixe o bebé por conta do pediatra.
- Claro, doutor. Ela também queria segurar o bebé logo após o nascimento.
- Porquê? Temos um berçário absolutamente amoroso para os bebés…
Estou tão farto destas mulheres que acham que sabem o que é melhor para elas e para os bebés.
- Acontece que ela é neurocirurgiã.
- Deixe lá isso. Vamos despachar isto antes que o bebé decida sair sozinho.
- Bisturi. Afastadores.
- Vamos lá.
- Então, enfermeira, foi suficientemente indelicada para interromper a partida de golfe do seu médico, quando teve o seu bebé?
- Não, senhor doutor, por Deus! Era lá capaz de uma coisa dessas, quando estive tanto tempo para parir!
- Felizmente alguém me dá ouvidos.
- Sim, senhor doutor, tenho-o ouvido. Foi por isso que pari em casa com uma parteira.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Boa Marca

«Que te meta cuatro goles el 'SuperrequeteBarça' en el Camp Nou es una cosa, por mucho que uno claudique en el túnel de vestuarios, pero que te vengan unos brasileños disfrazados de portugueses y te enseñen, uno por uno, los fundamentos de este deporte, es cosa seria.»

Isto diz a Marca, jornal desportivo nuestro hermano, a propósito da vitória do Sporting de Braga sobre o Sevilla Fútbol Club. [Ainda não acredito que me debruço sobre esta bola, mas cá vai.]

A sério? Então e, sabendo disto – das aptidões didácticas dos brasileiros – o senhor Álvarez aprendeu a lição, verdad? Para a próxima, dá a titularidade a mais uns quantos brasileiros, vale? Bem, a uns quantos não dará, uma vez que o plantel só conta com dois – Renato e Fabiano… chatice… Ainda dará para ir às compras, ou tem de esperar pela reabertura do mercado? Seja como for, é sempre possível adiantar trabalhinho de casa: sugiro chicotada já, com a contratação do… sei lá… um brasileiro qualquer. E o olheiro do Sevilla quem é? Não interessa. Fuera! Um brasileiro para o lugar do gajo e que venha de lá com uns vinte mestiços na bagagem! Enquanto o mercado mexe e não mexe, o Navas está fora também – está visto que prata da casa a jogar é má política. E o Palop só não leva já a guia de retorno porque a baliza ficava sem ninguém – o Varas também é castelhano. Azar. Ou melhor: Paciência.

Dê para onde der, com ou sem Paciência, a humildade, o fair-play e o civismo – bom antídoto contra a xenofobia – também podiam entrar no cabaz das novas aquisições, não do clube, mas do senhor que escarrou no teclado semelhante disparate, porque há fundamentos do jornalismo e da convivência social que, definitivamente, não domina.

Bom dia


Isto na sequência da boa noite e por sugestão da Sara.

Boa noite

À noite sou eu, só eu. Pontualmente mãe – se os miúdos ronronam sonhando – ou mulher dele – se o homem da casa marca presença numa lamúria sumida e rápida sobre os membros dormentes. Tudo o resto é silêncio, tudo o resto é meu. Pago com horas de sono estas horas só minhas. Preciso delas. Excepção feita para os primeiros doze meses de parida, as noites são para mim. Queimo-as, consumo-as, derreto-as a meu bel-prazer. É quando o sol me ameaça a azul e roxo que gosto de desistir. Estes dias estão a chegar ao fim. Ninguém me ouviu lamentar o final da praia, mas o fim destas noites… Hoje fico por aqui, não espero pelo sol, que ainda está a três horas de viagem e eu preciso de acertar ponteiros para a semana que vem.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Abertura fácil

Ainda sou do tempo em que todo o Tetra Pak garantia “abertura fácil”, quando, chegada a hora da verdade, tínhamos leite, refrigerante ou polpa de tomate por todo o lado, tal era a violência da peleja – um wrestling diário, com o trivial resultado de 3-0 para o pacote. Depois, a garantia de “abertura fácil” começou a desaparecer das embalagens, quando estranhamente estas começaram a tornar-se fáceis de abrir. Nunca mais tive Mimosa, Guloso nem Compal do chão ao tecto – a coisa estava mesmo fácil, embora os Tetra mais duros de roer se mantivessem em circulação.

Da parte do Ministério da Educação, as embalagens continuam a chegar-nos às mãos com a menção “abertura fácil” – para além de expiradas no prazo de validade – e, ano após ano, lá nos vamos confrontando com ECD(1) , TLEBS(2) e EA(3) cuspidos e refractados, maculando-nos chão, paredes e tecto. Estou cansada de andar de esfregona e desgastada por intoxicações sucessivas.

Mas somos resistentes. Para já, o manual de sobrevivência para professores resume-se ao seguinte:



À prudência, mantenhamos o pacote fechado, que nunca se sabe para onde é que a coisa pode espirrar.


(1) Estatuto da Carreira Docente

(2) Terminolgia Linguística para o Ensino Básico e Secundário

(3) Estatuto do Aluno